Fotografia (parte 019) Intenção


Temos novidades. A partir deste artigo estaremos alcançando um novo modelo de aprendizado, onde continuaremos falando das nossas propostas iniciais, porém entraremos em ramos específicos da fotografia. A formatação das publicações também mudou.
Hoje teremos uma introdução para a fotografia de retratos. E a história começara com Rembrandt (1606-1669), um dos maiores mestres da pintura de retratos e da história da arte europeia. Depois passaremos pelo que chamo de “ensaio” verdadeiro e emocional. Mãos à obra.


Dentre tantas coisas que poderíamos (e podemos) aprender com Rembrandt, me atento há um detalhe em específico, que será a força motriz deste artigo.

Dizem que os olhos simbolizam uma porta de entrada para a alma, ou para a verdade do que somos. De certa forma, as pinturas de Rembrandt geralmente “falavam” de pessoas com vida material confortavelmente estabelecida, mas suas pinturas de retrato exploravam a essência desses indivíduos em seus olhos.
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7c/Rembrandt_Harmensz._van_Rijn_135.jpg

O que você sente nesses olhos (e expressão)? É disso que se trata o retrato! Identificar a personalidade ou a profundidade que emana daquela pessoa.

Muitos profissionais produzem ensaios, fotos de família e retratos lindos. Por outro lado, a identidade geralmente está oculta pelo que lhe é pedido ou pelo que o mesmo propõe.
Dadas as pressões diárias e o interesse em apresentar algo de cunho social, onde as fotografias serão apresentadas (através de relações pessoais diretas ou por redes sociais), queremos sair “bonitos” na foto. Muitas vezes o resultado se assemelha bastante com catálogos comuns que encontramos em lojas que investem no setor de vestuário. Vamos ao exemplo:
https://stocksnap.io/user/philipmeurisse

Linda fotografia... a dama é sofisticada, mas também apresenta um visual despojado e claramente declarado pelo vestido que remete para o campo (vida de camponês), exceto pelo salto. A paleta de cores é homogênea e a locação não compete com o elemento humano.
Aprecio as quebras de formalidade: corpo inclinado, pé na parede e a mão segurando a bolsa. A luz é difusa e colabora com a cena em geral. É uma bela fotografia.

Se a ideia desse trabalho é apresentar algo  voltado para catálogos de moda, então este é um bom trabalho.
Quanto aquela pessoa, o que podemos saber dela sem invadir sua vida? Percebem como somente o exterior dela ganha espaço? Você pode até dizer que ela é sofisticada, requintada... receio que estes adjetivos não sejam suficientes para alegrar meus olhos. Vamos ao próximo exemplo.

https://stocksnap.io/author/804

E agora? O que você percebe? Ela parece culta, sofisticada, seletiva... e ainda tem sua imagem associada aos próprios valores internos (ao menos essa é a sugestão do trabalho). Esses valores estão na mão que apoia o livro, na mão que toca o rosto sem suportar o peso, mas sim “acariciando” a intelectualidade sugerida e que leva para a reflexão (que pode ser daqulo que acabou de ser lido), os olhos distantes e elevados para a “fantasia” e por aí vai. Este é um trabalho repleto de significados e símbolos.

Num passado não muito distante eu apreciava imagens, mas não sabia exatamente o motivo daquela beleza. Observando, fotografando e lendo... aos poucos moldaremos a nossa percepção de elementos sutis.

Quase esqueci... tome muito cuidado com objetos e formas que se projetam por trás do elemento humano. Note a faixa escura que se projeta do topo da cabeça dela... isto deve ser evitado.

Você pode até dizer: Alex, você está falando de direção de modelos (isso é muito estudado na fotografia)?
Eu respondo: Sim, estou! Porém aponto para um norte relativamente distinto e extenso! Anatomia, expressão e contexto devem trabalhar em benefício do que é a pessoa. Se eu contratasse um profissional, seria isso que eu gostaria de transmitir. Deixo aí a dica para quem pretende ter um ensaio comemorativo (15 anos, casamento, bodas, conquistas profissionais...). Reflita sobre algo além da forma nas suas fotografias, seja você quem fotografa ou é “eternizado(a)”.
https://unsplash.com/mili_vigerova

Emoções

Vamos fechar um pouco mais o cerco... muitos têm certa inibição na frente da lente. Cabe ao “produtor” de imagens estabelecer um contato antecipado. Talvez a busca de gostos comuns, de interesse pelo que o alvo das suas imagens faz (na vida pessoal ou profissional) seja uma porta de entrada para o escopo de um projeto. Conhecer um pouco dessas pessoas é fundamental. Lembre que isto também pode ser aplicado nas fotografias da sua própria família e amigos.

Uma abordagem que pode funcionar é ser “informal” e natural. Numa das minhas leituras encontrei algo interessante, onde o autor falava sobre encontrar pessoas (clientes em potencial) com a câmera em uma das mãos logo após se apresentarem. Feitas as primeiras honras, ele tirava a câmera de uma bolsa lateral despretensiosa... falava sobre o equipamento e no local mesmo fotograva algo interessante (uma flor, taça, agenda...) e dali desenvolvia uma pequena história que serviria de inspiração para um suposto ensaio. Isto ajudava a conduzir as expectativas do cliente em relação ao trabalho e a confiança que pode ser depositada em você.
Em seguida ele apontava sua atenção para o que o “cliente” tinha para contar. De certa forma, aquela abordagem já funcionava como um meio para que este cliente percebesse que há algo mais e que a câmera não morde (risos).


Noutros encontros era o contrário, pois o cliente é a estrela e está em primeiro lugar. Reitero que o cliente pode ser seu próprio filho numa festinha de aniversário, sua amiga se formando e etc.

A fotografia é um processo “lento”, mesmo que todas as propagandas de câmeras e dispositivos com câmeras no mundo tentem te mostrar que é fácil e rápido.
Uma câmera pode produzir dez fotografias por segundo, mas este é um processo automatizado e pouco humano se você não for de encontro ao que está por trás de toda a tecnologia... se reparar bem, verá que você é a razão, a câmera é o meio e o seu assunto é o sentido de toda a vida que deve se projetar através da sua lente.


https://unsplash.com/scoutthecity

No exemplo acima temos um momento único e maravilhoso. Talvez, pelo que aprendemos sobre a regra dos terços, você imagine que a posição deles não é tão favorável. Se observar bem, a menina está sobre um dos terços verticais e, melhor ainda, o segredo sendo compartilhado (que é o assunto da foto) está próximo deste terço.
Agora pouco falei sobre o cuidado com formas e objetos se projetando por trás de pessoas, mas toda “regra” pode ser quebrada. A janela colabora de forma feliz, pois dois lados apontam para as meninas, mesmo que suas formas estejam se projetando por trás (principalmente no topo da cabeça das duas)... para quebrar regras, precisamos conhece-las.

O que eu poderia mudar neste lindo trabalho? O corte (relação entre o quadro e o assunto)! A ênfase está no contato entre elas, então seria interessante ampliar isto.
A borda inferior do quadro corta a menininha no tornozelo. Sempre evite cortar pessoas e animais nas juntas, pois isto faz com que o observador sinta falta de algo. O corte mais adequado para este caso seria na canela (veja abaixo).

E aqui vai uma outra opção de corte, em que mudo a orientação para o formato retrato (quadro "em pé") que aprendemos em outros artigos deste blog.

Continuando... a fusão das ideias que apresento tendem a se inclinar para algo que combine o lado de fora com o lado de dentro.
https://unsplash.com/kevinschmitz

Vaidade, naturalidade, amizade, toque físico... você gostaria de se inscrever numa academia que tivesse essa fotografia bem no alto do estabelecimento? Pode ser que malhar não seja de seu interesse, mas que esta fotografia iria chamar sua atenção, iria! ;)

Darei voz ao silêncio...
https://unsplash.com/gabrieleforcina

Cores lindas, cabelos como raízes... essa a junção entre ser e estar. Obviamente não aprecio o corte nos cotovelos e as mãos poderiam construir uma relação mais profunda com a vegetação, mas quem sou eu pra falar? Essa é a interpretação do autor e eu apenas aproveito para supor o que poderia complementar o momento.


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